

Ficou desesperado. Foi chorar no ombro da mãe e ela bateu-lhe a porta na cara. A esposa o abandonou e levou-lhe embora os filhos. Recorreu a todos que conhecia, e todos lhe viraram as costas. Estava abandonado, sem dinheiro, sem lar, sem cabeça. Vivia em botecos, largado ao balcão, sóbrio, implorando por uma bebida e recolhido à miséria de ter de esperar a data da degola consciente, sem poder se embriagar.
Compadecido, fui até ele. O homem transbordava sofreguidão e desalento. Não sabia quem Eu era, mandou-me embora e tentou expulsar-me de perto. Expliquei de quem se tratava. Ele riu.
- Quer dizer que Você é o...
Com um gesto de mão, fiz com que ele se calasse e se acalmasse.
- Sim, sou Eu. Veja só, tenho uma proposta a fazer-lhe.
- Tem? Qual?
- Tenho. Andei te observando durante essas últimas semanas.
- E?
- E senti que você não merece terminar na sala de um colecionador de cabeças. Você é boa gente, entende o que digo?
- Entendo. O que o Você propõe?
Valdemar deixara o tom ríspido e assumira o respeitoso. Os olhos já ganhavam de volta o brilho de esperança. Pedi alguns drinques e começamos a beber, já bastante animados.
- Proponho a recuperação da sua cabeça e uma vida nova. Uma mulher gostosa, filhos saudáveis, um carro novo todo ano, uma casa cara e muito dinheiro. O que me diz?
- Você disse dinheiro?
- Muito dinheiro.
- O que tenho de fazer em troca?
- Depois que tiver isso tudo, só o que Eu mandar, quando mandar.
- Não entendo direito o que quer dizer, mas se vai me salvar, negócio fechado.
Estendeu a mão, agradecido, trocamos um aperto firme e logo me perguntou como faria tudo aquilo por ele.
- Deixa comigo, meu caro. Eu resolvo tudo sem você se preocupar com nada.
Em três anos, Valdemar se tornou um homem realizado, dos que têm sucesso em tudo e todos invejam.
Quando nos encontramos novamente, estava totalmente mudado. Agora parecia mais jovem, tinha a barba feita, andava bem vestido e fumava bons charutos.
Saudei-lhe com ânimo. No entanto, ele parecia não se lembrar graças a quem ainda era dono da própria cabeça e tinha uma vida confortável.
- Olá, Valdemar. Já faz três anos.
Ele parecia embaraçado.
- Vejo que continua vivo e anda muito bem - continuei
- É verdade... - disse de modo inseguro e, após alguns segundos em silêncio, perguntou novamente no antigo tom ríspido - mas afinal, o que você quer?
Ele parecia tomado de medo ao me ver.
- Ora, mas o que foi que aconteceu? Você não se lembra? Aonde foi toda a sua avidez e animação ao falar comigo? Eu só quero que cumpra a sua parte do trato. Lembre que não se pode fugir dele.
- E o que quer que eu faça?
- Ah, nada de mais, meu caro. Nada de mais. Escute, essa noite vou aparecer na sua casa, sim? Vou lhe explicar tudo. Eu cumpri a minha parte, o colecionador está morto e todo o resto aconteceu. Você terá a situação confortável de hoje pelo resto da vida. Da mesma forma, terá de me obedecer por um período de tempo ligeiramente mais longo, sim?
Ele continuava não parecendo muito confortável.
- Relaxe - eu o consolei com um tapinha no ombro - e tudo há de acontecer mais facilmente.
Sem mais palavras, tratei de seguir meu caminho.
Na mesma noite, apareci sentado na poltrona dele, na sala da casa. A mulher fazia o jantar e os filhos brincavam. Uma bela casa, sem dúvida. Bem mobiliada, com decoração suave e adornos discretos em todo lugar. Peguei um cubano e comecei a fumá-lo, até que o Valdemar saiu do banho e desceu as escadas.
Assim que me viu, empalidaceu, mas não estranhou que Eu estivesse ali. Ficou preocupado com a família.
- Não se preocupe, meu caro. Eles não podem me ver.
- O que quer, afinal? Diga logo e eu faço de uma vez.
Balancei a cabeça em desaprovação e adverti:
- Não é tão fácil assim. Você me prestará seus serviços por muito tempo.
- Que serviços? - falou com voz impaciente
- Sabe, Valdemar - estalei os dedos e continuei de pernas cruzadas na poltrona. Ele observava ao redor, sua família paralizada como estátua e todo o resto imóvel. Dei uma longa pausa, tentando achar as palavras certas, e prossegui -, Eu me apaixonei por você desde a primeira vez em que o vi.
Ele voltou o olhar para mim. Tinha assumido uma fisonomia de horror. Valdemar estava atônito. Não conseguia dizer nada.
- É verdade. E é assim que vai funcionar. Infelizmente, você não tem saída: todas as noites, quando ouvir o estalar dos meus dedos, já vai saber que está para começar a nossa noite. Não se preocupe. O que faremos será por amor.
Seu rosto expressava uma mistura de raiva, surpresa e horror.
Continuei:
- O tempo vai parar, e eu quero que você desça ao porão...
- Mas não existe porão aqui - interrompeu desesperado, numa tentativa de desvencilhar-se do assunto.
- Agora existe. Quero que desça ao porão, coloque a roupa que achar no armário e me espere na cama. Eu chegarei logo depois, e desfrutaremos juntos dos prazeres carnais.
- Seu maldito! Seu miserável! - ele berrou com os olhos rasos d'água, tomado de fúria.
Tentou me acertar com um soco no rosto. Acertou a poltrona. Eu não estava mais lá.
- Escute, Valdemar - minha voz ecoava pela sala -, é melhor honrar a sua parte do trato. Nem pense em se negar a fazê-lo. Será pior ainda.
- E o que pode ser pior? Onde você está? - ele bradava iracundo.
- Coisas ruins podem acontecer à sua família.
- Quem se importa?
- Bem, coisas piores poder acontecer ao seu dinheiro.
Ele se limitou a silenciar e baixar a cabeça.
- Amanhã. Amanhã começaremos.
Ouviu-se novamente o estalido e tudo voltou ao normal. E ficou ali, parado, sem reação.
Na noite seguinte, o mesmo barulho. Valdemar desceu ao porão, hesitante, se fantasiou de anjo e pôs-se a me esperar.
Lá estava ele na cama quando cheguei. Possuí-o com amor, com vigor e, por fim, com violência, enquanto ele choramingava palavras ininteligíveis. Foi maravilhoso. Satisfiz-me, sussurrei ao seu ouvido que o amava e que com o tempo aprenderia a me amar também. Ao som dos dedos, desapareci e o tempo voltou a correr. Ele parecia traumatizado.
Todas as noites, encho-me de tesão e, de longe, ao estalar dos dedos, já posso ouvir os gritos de horror do Valdemar apavorado.