sábado, 21 de fevereiro de 2009

Voraz


Deita-se todas as noites em novo leito, sem se cansar de sacrificar seu corpo repetidamente a volúpia. Uma musa insaciável. Sorve de seus machos todo o vigor, deixa-os ofegantes, e ainda insatisfeita implora por mais. Mas eles não passam de escravos submissos. Paixões intensas de noites vazias.

A depressão sempre vem ao amanhecer. A história é a mesma. Larga o amante ao resplandecer da primeira luz da alvorada, sentindo o mais puro nojo dele e de todo o ambiente em que acorda, qualquer que seja. E de si, só a mais pura pena. Entrega-se ao choro no caminho de volta ao que lhe serve de abrigo durante o dia. Não chega a ser um lar. Já não tem ideia do que é ter um lar. Soluça, entre gritos e lamentações, pela solidão que a consome. E por fim adormece, após tanto se debater contra as paredes velhas e quebradiças de seu quarto, socando-as com as poucas forças que lhe restam, como se enfrentasse seus medos, achando que de algum modo pudesse descarregar nelas sua raiva e se curar de tudo o que sente.

Descansa o corpo saturado. E novamente acorda em desespero ao sentir o vazio da solidão lancinante e aterradora. Voa apressada até a rua, sentindo a sede violenta por sexo e companhia noite adentro. Qualquer um a leva para casa após um prato de comida, uns drinks e alguns cigarros. Já mal consegue ser uma puta. O pagamento se reduz a nada além do necessário para a subsistência. E jamais consegue preencher as lacunas frias e infinitas que a habitam. Sua vida orgásmica é previsível. Seu ignóbil desejo é sentir-se amada. Fracassa outra vez. O desenlace se repete.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Mais um corpo vai ao chão




Possui o revólver antigo na mão direita, quase largado, frágil, entregue ao ar parado da sala. A mão esquerda segura a cabeça, forçando o cotovelo contra a mesa. Tufos do cabelo já levemente grisalho entremeiam os dedos franzinos e trêmulos. O coração bate vagarosamente. A calma sobressai apesar de todo o desespero, enquanto um cigarro pende da boca, recém-aceso, soltando sua fumaça que rapidamente trata de se dissipar naquele ambiente mórbido. As feições transmitem um ar fortemente amargo, reproduzindo a mais sincera decepção. Aproveita languidamente o desgosto de seus últimos momentos, saboreando cada vagaroso segundo. É como se não pertencesse mais ao mundo que o rodeia, como um turista que visita rapidamente um lugar e em breve não estará mais ali.

Pela primeira vez em anos sentiu-se realmente livre. Ali, sem quaisquer obrigações, sem dever nada a ninguém, desfrutando da sensação de silêncio que tanto desejou ao longo de toda a vida, porém jamais obteve. Sim, livre. Sem ninguém lhe aporrinhando o saco. Finalmente todas as vozes que lhe tomavam a cabeça se haviam silenciado, o que, por coincidência ou não, só acontecera depois da decisão tomada. Era certo, estaria morto pelas próprias mãos em poucos instantes. Não havia quem pudesse impedir, tampouco convence-lo do contrário. Nesse ínterim, por que não um último cigarro? Retomava o velho e familiar hábito de tantos anos atrás. O tabaco ia-se consumido em tragadas profundas e bem espaçadas. Tomaria algum tempo antes de ser terminado. Revezava seu tempo entre lábios e dedos, por vezes esquecido, entre uns e outros dos últimos devaneios de seu dono, cujo olhar já se perdia entre o sofá empoeirado e a estante abarrotada de livros velhos e sujos. Como se ali entre tantas grandes idéias e palavras restasse alguma última esperança, ou simplesmente algo que lhe despertasse um interesse há tanto perdido no que quer que fosse.

Estremeceu. Deu-se conta que não era sequer capaz de acreditar em si mesmo, o que lhe provocou certa inquietação. Sabia que era um ínfimo pedaço de um nada ainda maior que ele mesmo. Postrou-se diante da mesa lascada, em tom pensativo. Mas não havia mais o que pensar. Estava tudo acabado. Deixou a pose de lado e se recompôs, estudando as possibilidades. Mas que possibilidades?, pensou. Não havia nenhuma. Mais nada.

Passou os dedos pelas bordas do bilhete que deixaria a quem quer que o encontrasse jazendo morto no chão da sala, deitado sobre uma poça de sangue. Quem sabe até algum familiar poderia chegar a lê-lo, se tivesse sorte. Escrevera poucas palavras. Um típico último adeus de um suicida que soa tão misterioso aos vivos. A ele parecia simples. Apenas se pôs a rabiscar algumas últimas palavras e assinou. Não havia grande motivo para pensar muito a respeito. Depositou aquele maldito papel sobre a mesa e deu sua última tragada, sentindo a fumaça entrar profundamente em seus pulmões.

O cigarro acabou, por fim. Não se preocupou sem se livrar das cinzas. Não faria a menor diferença. Jogou-o para o lado, a qualquer canto da sala, e limitou-se a suspirar. Finalmente estava pronto. Empunhou o revólver mais firmemente, apertando os dedos e a palma da mão contra o cabo. Engatilhou-o e posicionou seu indicador, com a ponta do cano da arma já colado ao céu da boca, para que não corresse o risco de sobreviver. O projétil se alojaria diretamente no cérebro, sem alternativa além do falecimento súbito e indubitável.

Apertou o gatilho, finalmente.

Clic. Bum. E mais um corpo vai ao chão.

Só lamentava não poder ver a reação da esposa e filhos quando entrassem pela porta.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Reificação




Contempla o cair da noite, recluso a seu cubículo, ao qual ousa dar o nome de lar. Observa o lado de fora, incapaz de se dar conta de si mesmo. Perscruta atentamente o que o rodeia, reparando cada fútil detalhe, na melancólica e por vezes bizarra esperança de encontrar uma rota de fuga. Já quase esquecendo da própria existência, chegando ao ponto de desistir de si. Talvez porque não tenha mais vontade alguma de prestar atenção no seu ego já miserável e consumido pela rotina. Já se tornou um autômato, acostumado ao mesmo movimento cíclico que sempre executa. Um homem-engrenagem. Movido por outros exatamente iguais. E por eles influenciado. Manipulado. Exausto e sem coragem demais para tentar libertar-se.

Reduz-se a si, um homem acovardado e simplório, um miserável aprisionado aos escarcéus mundanos, esgueirando-se diariamente por entre os prédios cinzentos que lhe servem de prisão, que o entregam à fria realidade de um mundo repulsivo. Esconde-se em recônditos criados por ele mesmo, numa tentativa fracassada de se aliviar da realidade perturbadora que se encarrega de consumi-lo, moldando em sofrimento sua face já marcada pela monotonia. E o faz trazer à lembrança dos que observam suas feições gastas a impressão de horror, deixando claro o vazio terrífico que passou a deter ao longo de tantos anos imundos vagando pelo nada sem possuir sequer algum esboço de rumo.

E quando finalmente olha para si, e percebe que ainda existe, não se reconhece no que vê. Porque dele só resta um espectro retaliado e insignificante, perdido no mundo urbano e inexpressivo que nada mais significa. E assim permanece, condenado a esse pequeno universo de reificação absoluta. À mercê dos dias. Do tempo.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Solidão



A luz inebriante de mais uma pálida manhã penetrava a janela e dava as faces de outro um dia nublado. Despertou-me aos poucos, em tom sorrateiro.

O ambiente soturno do quarto em que dormira até então se aproveitava do fino feixe de luz para sustentar sua aparência melancólica. Como num gesto simbólico e irônico para me fazer acreditar que, como aquele fio frágil de luminosidade que trespassava o quarto melancólico, eu ainda deveria ter alguma esperança de que algo bom pudesse me acontecer. Deixei-me ser incomodado por algum tempo. Sabia que não havia como impedir o quarto de ser iluminado aos poucos. Continuei deitado, sentindo os lençóis ásperos, sujos de grãos de areia ao meu redor, entrelaçando-se ao meu corpo desordenadamente, deixando a sensação de desconforto me consumir até que eu resolvesse levantar. O cheiro forte de poeira me agredia, fazendo meu tormento mais desagradável ainda. Eu acordara e permanecia em estado semi-consciente, maldizendo em sussurros todo aquele lugar por não me permitir mais alguns minutos de sono sequer. Ao menos o silêncio parecia ser preservado. Não ouvia-se barulho nenhum além do meu respirar e rolar tenso na cama.

Finalmente resolvi sentar-me entre alguns dos numerosos calombos que a habitavam. Minhas pálpebras ainda pesavam, dificultando minha visão e desencorajando-me de seguir adiante.

Foi difícil levantar. O gosto amargo de uma noite longa me incomodava. Tossi algumas vezes. Meus pulmões doíam, meus pés mal suportavam o peso do meu corpo e já me davam a sensação de cansaço. Minhas pernas imploravam que eu não as erguesse além daquele ponto, fadigadas e descaídas sem que eu ao menos lembrasse por quê. Meu corpo estava esgotado. Física e psicologicamente. Não havia o que eu queresse além de sair de lá num salto, deixar aquele lugar que me aturdia tanto. Fui aos poucos me içando da cama, vagarosamente, sentindo as dores que acompanhavam cada parte do meu corpo aumentarem pouco a pouco. Cada vez mais cálidas, cada vez mais intensas.

Fiquei de pé. Meu esforço finalmente me erguera. Cheguei a sentir certo orgulho por ter tido sucesso quanto àquilo. Agora meus passos deveriam guiar-me para fora de lá. Meus pés continuavam a protestar, querendo não continuar no desenrolar daquela árdua tarefa. Com razão. Mas eu precisava sair, ir a algum lugar que não fosse tão desagradável. Passei pela porta do quarto, empenada, já prestes a cair, e me deparei com um corredor. Percorri cambaleante alguns metros dentro do que parecia ser uma casa desfeita aos pedaços. Finalmente saí, já ofegante, sentindo o suor que me descia pelo corpo e trazia o desconforto que a umidade me fazia sentir.

Parei à soleira da porta. Observei o que havia ao redor, sem ter idéia de onde estava, ou por que estava ali. Deparei-me com uma rua destruída. As casas que a ocupavam estavam em ruínas, algumas haviam se reduzido a paredes que já não sustentavam nada, enegrecidas e parcialmente tombadas por algo que aparentava ter sido um incêndio acompanhado de um terremoto ou algo tão destrutivo quanto. Andei por algumas horas, já ignorando a dor que tanto me incomodava. Tudo parecia simplesmente abandonado. Entregue ao caos.

Vaguei por dias ao longo de ruas e frígidas insalubres, sem achar nada que me pudesse explicar o que havia acontecido. Tudo havia se tornado simplesmente deserto. Não havia uma única alma ainda viva, tampouco morta, que habitasse sequer algum daqueles tantos quilômetros percorridos.

Mais ninguém. Mais nada. Só eu. Literalmente só no mundo. Preso e solitário no abismo repugnante da degradação humana.



(M.L.)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Sonho


Eu andava num gramado macio. Era mais verde e vivo do que os comuns. Talvez fosse porque você estava lá para fazer tudo melhor, mais belo. O dia era suavemente ensolarado e uma brisa delicada soprava em nossos rostos. Os passos silenciosos caminhavam em harmonia rumo ao nada, simplesmente atravessando o espaço e cortando o vento para alcançar qualquer lugar. Eu já não sabia quem era. Eu. Assim, sem nome e sem lembranças, sem passado.

Meus olhos procuravam os seus, em busca de segurança e respostas. Mas os seus fugiam, recusando-se a ceder-me sua atenção. Eu achava não ser capaz de pensar por mim mesmo, tampouco de andar por mim mesmo. Temia que voce soltasse a minha mão e eu caísse. Eu não sabia de você. Eu te amava. Sem ao menos saber por que. Mas você não me soltou. Continuou a me segurar, a caminhar comigo de cabeça baixa, com o rosto escondido entre os cabelos escuros, que refletiam a luz já fraca do sol já poente. Eu não sabia o que fazer. Eu não sabia nada. Deixei-me levar por teus passos.

Tentei me aproximar mais. Você se afastou bruscamente. Soltou-me e foi para longe de mim. Mas não caí. Deixou-me ali, parado, te fitando de costas, sem me dar conta do caos que tomava meu interior e exterior. Eu simplesmente jazia ali inerte, sob o céu já enegrecido num tom acinzentado, sem vida. A escuridão começava a cercar tudo, prenunciava o desastre sem que eu percebesse. Você se virou para mim, ainda sem revelar o rosto. E foi se desmanchando, se transformando em cinzas que aquela brisa levava ao alto e desaparecia, transfigurada em pó. Corri tomado pelo desespero para te alcançar e fazer algo que nem sabia o que. Mas fazia-o em vão. Não havia mais você.






(M.L)

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Nada de novo no Front



Tocou o alarme do despertador. Levantou-se da cama lentamente e, desanimado, foi andando até a cozinha, ainda parcialmente atordoado pelo sono. O aroma exalado pelo café tomava o lugar por completo, invadindo suas narinas e despertando-lhe a diária preguiça que o cotidiano impunha. A empregada fora arrumar o quarto. Serviu-se do café, passou manteiga numas torradas e sentiu o mesmo gosto de sempre, já sem achar nele mais graça alguma. Os sagrados e monótonos rituais de toda manhã, que o tempo há tanto desgastara. Que a solidão há tanto desgastara.

Catou o jornal do dia. Abriu-o e pôs-se a lê-lo. Tiroteios. Alguns mortos, outros tantos feridos. Assassinatos em todas as páginas, corrupção, mais umas mortes e a tabela do campeonato. As mesmas notícias, os mesmos acontecimentos em todo lugar ao seu redor. Dobrou o jornal e deixou-o de lado. Maldito jornal.

Agora está só na cozinha, com uma xícara de café esfriando à sua frente e algumas torradas mordiscadas. O café da manhã pela metade. Ele fita o nada. O olhar perdido. E assim fica, vazio, quando lembra que é hora de enfrentar mais uma vez o caos urbano que o cerca, sair rumo a mais um dia monótono, sabendo que o próximo será igual. Abandonado por si mesmo no próprio cotidiano.

Assim será. Sempre.

E ponto final.




(M.L.)

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Sem título - Capítulo Primeiro

Em plenas férias, sem muito a fazer, resolvi insistir no erro. Ainda não está como queria que estivesse - ainda tenho que trabalhar bastante na narrativa dessa bagaça - mas dá pra ter uma ideia. Vou melhorando aos poucos, de edit em edit, sem avisos, se é que preciso avisar alguém. Enfim. Quem continuar a ler recebe minha gratidão e perde tempo.

Ps. Se estiver interessado(a) em ler esse capítulo, sugiro que leia o prólogo primeiro.
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Capítulo Primeiro



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O Sr. Andrei sempre marcou a memória de quem o conhecia como um homem agitado. Possuía estatura mediana e era corpulento, apesar de já ter alcançado a faixa de seus cinquenta anos, talvez um pouco mais. De sua cabeça não brotava sequer um fio de cabelo; ficara careca cedo, por volta dos trinta, talvez por reflexo da sua genialidade: um homem cuja inteligência parecia não ter limites. Raramente se viam pessoas mais sábias ou pálidas que ele.

Não dispensava o cuidado com a aparência. Vestir-se bem sempre fora uma de suas prioridades, pouco importando a ocasião. Possuía um vasto guarda-roupas, em tons discretos, predominando o preto e o cinza-escuro, com ternos suficientemente largos para cobrir seu corpo por completo.

Quase chegava a ser uma figura cômica, não fosse pelo rosto, de um ar profundo, indescritível, como se estivesse sempre a analisar cada detalhe minuciosamente. Possuía olhos de um azul hipnótico, que intimidavam quem quer que fosse seu interlocutor, falando por ele próprio e poupando-lhe o esforço de ameaças. Simplesmente refletiam seu interior: não era nada ingênuo, não podia ser enganado. Mentiras jamais o iludiriam, e todos eram capazes de perceber. Ninguém lhe escondia nada. Era como se, ao falar com alguém, fosse capaz de farejar e absorver os fatos sem dificuldade alguma. Não tolerava erros. Tampouco era capaz de perdoá-los.

Impunha autoridade por si só.

Andara a passos rápidos de um lado a outro de seu escritório ao longo de todo o dia e o anoitecer. Passos particularmente ligeiros, mais ainda que o de costume. Algo ia mal. Muito mal.

E, de fato, os lucros haviam caído estrondosamente nas últimas semanas, mesmo com o aumento constante da demanda. Significava que o fornecimento não estava a altura. Poucas coisas o irritariam tanto quanto isso. E uma delas conseguiu. Uma delas justificava mais ainda sua paranóia constante.

Rumores de concorrência.

Foi a gota d'água. Não poderia nem pensar em concorrência. O mercado em que atuava sempre foi perigoso, e todas as transações executadas em sigilo absoluto. O silêncio era primordial. O fato da ilegalidade o exigia.

*****


Campfel e Nicolai aproximaram-se daquele homem imundo e, sem quaisquer dificuldades, colocaram o pano embebido em éter sobre seu nariz e boca, segurando firme sua cabeça. Apresentou pouca resistência, até amolecer por completo. Asseguraram que não gritaria nem incomodaria a ninguém; com uma simples bola de meias na boca e algum pedaço de plástico unindo suas mãos. Já carregavam o mendigo devidamente anestesiado e amordaçado para o porta-malas do carro. Suas mãos eram protegidas da pele encardida do homem por suas luvas de couro, impedindo que corressem qualquer risco de contaminação. Mesmo assim notavam que sua epiderme era extremamente áspera, como se tivesse transmutado numa couraça de couro duro e inflexível para resistir ao mau tempo e às péssimas condições. Devia ser um homem valente, a julgar pelo fato de ainda permanecer vivo e persistir nisso depois de tanto tempo. Uma pena. O pobre jamais acordaria novamente.

Cumpriam a tarefa tomados por um desânimo evidente. Não deveriam estar ali. Afinal, o que Andrei queria com mendigos? Era claro que raramente algo deles seria aproveitado. Mas foram mandados e era dever deles. Obviamente questionaram o chefe no dia anterior, quando lhes foi dada a tarefa, mas este se absteve de dar qualquer justificativa que elucidasse a situação. Manteve-se em silencio por longos minutos. O primeiro sinal do desespero. Seria assim e pronto. Não havia necessidade de justificar nada a ninguém. Tinham em mente que algo estava errado, e logo saberiam o quê.

Depositaram o pária no porta-malas, despreocupados em olhar em volta para verificar se ninguém os observava. A rua era escura e deserta, num local relativamente ermo. Estavam seguros. Deram a volta e abriram as portas da frente. Sentaram-se e bateram suas botas umas nas outras, observando a poeira a deixá-las em forma de uma fina nuvem de fumaça.

Entraram e fecharam as portas ao som da ignição. O carro arrancou, levando-os pelas ruas vazias a um dos hospitais-necrotérios particulares de Andrei.

Foram recebidos friamente, como de costume, no estacionamento do primeiro andar subterrâneo, onde todos os indivíduos inconscientes chegavam. O leito chegou e simplesmente abriram o compartimento traseiro e deixaram que os enfermeiros se encarregassem de deitar o homem e levá-lo para os andares inferiores, o quarto e o quinto subsolo, onde ficavam os consultórios em que todas as vítimas eram analisadas, para então serem levadas mais acima, às câmaras de extração, no terceiro e segundo subsolo. Os elevadores saíam do primeiro diretamente para o quarto e o quinto andar, sem conexões diretas com os outros dois. Todos que lá chegavam eram obrigados a passar pelos últimos andares antes de subir novamente para o segundo e o terceiro. Só então poderiam retornar ao estacionamento e a superfície.

Era a maneira que Andrei havia encontrado para assegurar que os agentes seriam obrigados a fazer o mesmo percurso que suas vítimas. Acompanhariam-nas durante o diagnóstico e a extração do que quer que tivessem de útil, até que os transplantes fossem concluídos. Só então receberiam uma espécie de certificado do médico responsável pelas cirurgias, contendo todos os dados; quantas peças haviam sido aproveitadas, quais, sua eficácia, o preço pago pelo receptor e outras informações a respeito do processo. Assim finalmente estariam livres para apresentar-se aos assistentes de Andrei e receber a comissão e novas tarefas. Então viriam os próximos raptos, as próximas vítimas e os lucros. Tratava-se de um processo cíclico e complexo. Entretanto, jamais poderiam abusar ou fazer tudo em excesso, com o pensamento somente na recompensa. A discrição era a ferramenta mais importante para que toda a indústria funcionasse. Sem isso, todo o sistema minuciosamente planejado e construído ao longo de vários anos desmoronaria em questão de horas.



*****



Era fim de tarde. O Sol se punha e o sorriso estampado no rosto da jovem contrastava vertiginosamente com sua situação. Tinha poucos dias de vida. Uma semana, na melhor das hipóteses. A doença se alastrara rapidamente. Seus pais choravam ao seu lado, desconsolados, sem esperanças. Sua irmãzinha não entendia o que se passava, mas preferiu guardar o silêncio diante da tristeza dos pais. Era melhor que podia fazer seria não piorar a situação. Foi o que fez. Ainda não compreendera o conceito de morte. Esperava que a irmã voltasse em algumas semanas ou alguns meses, como numa viagem. Mas não haveria volta. É algo que sua jovem mente de quatro anos de idade ainda não alcançara.

No leito, a jovem tentava ser amável, mal reconhecendo aqueles que a rodeavam, mal sabendo quem era ou porque estava ali. O cérebro fora corroído silenciosamente ao longo de seus treze anos de existência até chegar àquele ponto. A degeneração era irreversível. Era como o mal de Alzheimer exponencialmente acelerado. Nada podia ser feito. Em breve esqueceria até de como executar as funções básicas para a sobrevivência. Comer, beber e até mesmo respirar. Estaria em estado vegetativo. Era mesmo digna de pena.

O médico entrou no recinto. Ar sério, com uma ponta de melancolia em vista de uma situação tão difícil. Examinou a paciente, contendo com esforço a alegria que sentia por dentro. Saiu após falar umas poucas palavras com os pais da menina, mantendo o mesmo falso tom de compromisso com o trabalho. Andou a passos largos pelo corredor e chegou a uma sala vazia. Tirou o celular do bolso e discou os números. Avisou, em tom de certa indiferença:

- Tenho uma perfeita. Saudável. Aproveitaremos o que for possível. - prendeu a respiração por numa breve pausa do diálogo - Sim. Meia-noite, nos fundos. Entendo.

E desligou.

No momento seguinte, do outro lado da linha, a ambulância já começava a ser preparada. Já haviam sido informados a respeito do caso havia algumas semanas. O motorista se aprontou, ao passo que dois médicos se equipavam. Os clientes já haviam sido selecionados. Pagariam bem. Os agentes teriam uma noite agitada pela frente. Precisavam ser rápidos. Ninguém podia esperar. Ninguém podia falhar. Havia vidas em jogo.


E isso incluía as suas.




(M.L)